
«Mobilidade escolar ativa é um campo verdadeiramente estratégico»
Diário de Aveiro: Na sua tese assinala que o espaço público está «cada vez mais condicionado pelo trânsito automóvel». Estamos a caminhar no sentido errado?
Joana Ivónia: Refiro-me a uma tendência que observamos na maior parte das cidades portuguesas, e não só: a prioridade continua a ser dada ao carro apesar de hoje sabermos muito mais sobre os impactos negativos que isso tem na saúde pública, na segurança, na qualidade ambiental e no bem-estar urbano. O domínio do automóvel ocupa espaço, gera insegurança, aumenta a poluição e limita a autonomia de quem mais precisa do espaço público, sobretudo crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Nesse sentido, sim, em muitos casos estamos a caminhar numa direção contrária ao que seria desejável. Aveiro é um exemplo interessante precisamente porque é complexo. É uma cidade com ligação à bicileta, condições morfológicas favoráveis e comunidades muito ativas, onde existem projetos relevantes na área da mobilidade sustentável e ativa. No entanto, enfrenta desafios estruturais: excesso de tráfego, uma cultura automóvel dominante, frentes escolares congestionadas, poucas vias cicláveis contínuas. Aveiro tem um enorme potencial mas está ainda muito por fazer e muito dependente de políticas públicas de mobilidade. É um território onde coexistem avanços importantes e recuos significativos, e onde pequenas mudanças, quando bem orientadas, podem ter um impacto muito grande. A nível nacional, há municípios que estão a avançar mas a tendência geral ainda revela um desequilíbrio evidente entre a prioridade dada ao carro e a necessidade urgente de recuperar o espaço público para as pessoas. Para construirmos cidades mais saudáveis e inclusivas, é fundamental inverter esta lógica.
Aveiro é um bom ou um mau exemplo nesta área?
Aveiro continua a ser um caso complexo precisamente porque reúne várias condições que, à primeira vista, são altamente favoráveis à mobilidade ciclável — uma morfologia tendecialmente plana, projetos relevantes já implementados e comunidades muito ativas. No entanto, estas vantagens esbarram frequentemente em políticas públicas que continuam a induzir o uso do automóvel em vez de criarem as condições necessárias para uma verdadeira mudança modal. Um dos pontos mais críticos é a falta de alternativas de transporte público eficientes, especialmente entre as freguesias e o centro da cidade. Refiro-me à ausência de um transporte público que seja realmente competitivo: regular, fiável, confortável, simples de utilizar e capaz de responder às necessidades quotidianas. Sem esta base, é difícil pedir às pessoas que deixem o carro em casa. O mesmo se verifica na rede ciclável: apesar de existirem troços relevantes, falta ainda uma rede contínua, segregada, confortável e segura, algo fundamental para que mais pessoas se sintam confiantes a escolher a bicicleta como modo de transporte diário. Paralelamente, continuam a faltar políticas mais firmes de restrição ao uso do automóvel, sobretudo em zonas de grande pressão como as frentes escolares e os centros urbanos.
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