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«O facto de termos uma vitória escassa não nos limita em nada»

O novo presidente da câmara municipal ilhavense, Rui Dias, eleito pelo PSD/CDS-PP, venceu as eleições com uma margem de 175 votos face ao movimento independente Unir para Fazer

Recuperar a câmara municipal para os sociais-democratas, nas eleições autárquicas de 12 de outubro, era a «missão» da equipa encabeçada por Rui Dias, que confessa não se sentir condicionado ou surpreendido com os resultados eleitorais. Com a vitória, a coligação PSD/CDS-PP conseguiu impedir o movimento Unir para Fazer de levar a cabo um segundo mandato à frente dos destinos do município. Agora, para cada ano municipal, a equipa de Rui Dias definiu uma área estratégica: a Educação será o foco em 2026, com o Associativismo a ser destaque no ano seguinte. Os últimos dois anos serão dedicados à Responsabilidade Social e Ambiental e à Identidade Cultural, respetivamente. Em entrevista ao Diário de Aveiro, o edil ilhavense falou sobre os planos para a educação e os investimentos idealizados ao nível das infraestruturas do concelho, bem como acerca dos desafios da erosão costeira, a intenção de «repensar» o Festival do Bacalhau e o papel da autarquia no plano desportivo.

Diário de Aveiro: Venceu estas eleições com uma margem de 175 votos. O facto de não ter alcançado uma maioria absoluta vai prejudicá-lo? Ficou surpreendido com os resultados?
Rui Dias: Não, nem me condiciona, nem fiquei surpreendido. Partimos para esta missão, de que tínhamos de recuperar para o PSD a Câmara Municipal de Ílhavo, com a convicção de que venceríamos a eleição. Sabíamos que seria um desafio complexo, são muito poucas as candidaturas que conseguem vencer um Executivo que está no primeiro exercício de mandato. Acontece muito pouco, porque as condições de tolerância por parte da população são sempre maiores, mesmo que o exercício seja menos conseguido. Para além disso, quem está no exercício de poder tem ferramentas e recursos disponíveis que quem está de fora não tem. Sabemos também que a maioria das câmaras municipais não é governada com maiorias absolutas, aliás, no âmbito do Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses, que decorreu nos dias 13 e 14, em Viana do Castelo, devemos ter a oportunidade de refletir sobre a necessidade de alterar a lei de funcionamento dos órgãos das autarquias locais, no sentido de permitir que quem ganha eleições governe - com o devido respeito pelos direitos da oposição - e não esteja muito condicionado no exercício do seu trabalho pelo facto de não ter maioria absoluta. O facto de termos uma vitória escassa não nos limita em nada. A democracia funciona assim, quem ganha governa, quem perde vai para a oposição, que desempenha um lugar relevante ao escrutinar, fiscalizar e acompanhar criticamente o exercício de quem está a governar.

Que ruturas considera inevitáveis com o legado deixado pelo anterior Executivo?
Acho que há uma rutura que é fundamental, a do relacionamento com as pessoas e as instituições. Não gostamos de criticar o trabalho dos outros, fizemos uma campanha pela positiva, viemos aqui afirmar o que eram as nossas propostas, os nossos objetivos e o nosso modelo de governação. Sabemos também que trazemos connosco um conjunto de pessoas que tinham uma notoriedade grande na comunidade por aquilo que tinham feito ao seu serviço. Temos noção de que quem vem para aqui vem fazer o seu melhor e o que nos traz aqui é um olhar sério, tranquilo e muito ambicioso para o futuro.

O próximo ano municipal será dedicado à Educação e já referiu que quer «olhar com seriedade» para o ensino profissional e técnico. De que forma?
Muitos dos alunos que demandam o nosso ensino têm qualificações que não permitem ter ambições muito grandes ao nível académico. Por um lado, temos ferramentas no concelho que nos permitem ter alunos altamente qualificados em cursos de maior relevância - seja em Engenharia Aeroespacial, em Medicina ou Matemática, temos muitos alunos com médias de 18 a 20 -, mas temos um universo muito maior de alunos com médias razoáveis. O posicionamento dos nossos agrupamentos nos “rankings” das escolas nacionais não é uma coisa que nos orgulhe muito, mas isso também não é relevante, porque é possível e é necessário que haja possibilidades para que aqueles que não acedam ao ensino superior mais clássico possam ter formação e ferramentas que lhes permitam trabalhar e encarar um mercado de trabalho com tranquilidade, conforto e ambição. Achamos que muitos jovens ficam pelo caminho, porque percebem que não têm capacidade de ter médias de 18 ou 19, mas o mercado de trabalho oferece hoje um conjunto enorme de opções e solicitações para pessoas que devem também ter qualificações ao nível do ensino médio. Mais, achamos que o facto de haver gente muito qualificada ao nível das profissões médias é um fator de atratividade dos territórios. Hoje, as empresas só se instalam se tiverem a certeza de que têm pessoas qualificadas para trabalhar e entendemos que não vale a pena que as pessoas queiram todas tirar cursos superiores de coisas que depois são inúteis, porque, no fundo, estragam os orçamentos, as expectativas e as esperanças das famílias. Os nossos jovens tiram cursos superiores pelo mundo que não servem absolutamente para nada a não ser para irem trabalhar para as caixas do Continente ou de qualquer outro mercado.

E o que pretendem fazer? Querem diversificar o leque de cursos técnicos oferecidos?
Sim, o nosso agrupamento de escolas já fornece ensino técnico. No fundo, [foi um] erro o que aconteceu com a extensão do ensino técnico das escolas industriais e comerciais, aquela separação clássica que havia entre os liceus e estas escolas, em que se qualificavam pessoas para o exercício de profissões, como as tipografias, as carpintarias, os canalizadores e eletricistas, que são profissões que são muito mais valorizadas do que ser advogado ou engenheiro. Se dermos um pontapé numa pedra encontramos seis advogados, mas se procurarmos muito não conseguimos encontrar um canalizador. Portanto, isto diz bem as regras de funcionamento do mercado, a oferta e a procura, e diz bem quem é que vai ser melhor remunerado. [Trabalhadores] qualificados [nestas áreas] vão encontrar, certamente, condições para serem muito felizes e bem remunerados nestes empregos, a que chamamos de menores, mas que são tão dignos como todos os outros.

Deu conta de que quer estabelecer um modelo de intervenção educativa desde o nível pré-escolar. Como se vai materializar este modelo?
Vivemos num mundo tecnológico em que quem não domina as ferramentas tecnológicas está excluído. Portanto, quanto mais cedo as nossas crianças se familiarizarem com as ferramentas tecnológicas, melhor. A Fábrica Centro Ciência Viva tem já modelos de ensino e de integração no conhecimento tecnológico muito adequados à infância e à gente mais jovem, sobretudo que lhes permite, desde novos, começar a ter a vontade de somar conhecimento a esse conhecimento tecnológico, através de uma visão muito adequada, quer no que é o conteúdo formativo, quer na forma como interagem com as crianças. Têm, inclusive, implantado esse modelo já em alguns lugares e queremos trazer esse modelo para cá, servidos pela proximidade que temos com a Universidade de Aveiro (UA). Não queremos uma universidade em Ílhavo, a nossa universidade é a UA e temos uma relação muito privilegiada, quer com a reitoria, quer com o Parque de Ciência e Inovação (PCI), que está aqui instalado, quer com a direção da Fábrica Centro Ciência Viva. Queremos ancorar aqui uma nova forma de olharmos para o ensino, qualificando o mais possível a nossa gente mais jovem.

Quão importante é a relação entre o PCI e a câmara municipal?
É muito importante. Embora o sócio maior ao nível das autarquias seja a própria CIRA (Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro) e o grande acionista seja a UA, as unidades de investigação e desenvolvimento têm hoje um papel muito importante no que é o tecido científico e académico nacional e internacional. O facto de termos instalado no nosso concelho um conjunto de “cérebros” e de empresas que são hoje referências mundiais no âmbito da investigação e do desenvolvimento é muito bom para nós. Por um lado, até no desenvolvimento do tecido habitacional, porque estamos a pensar em projetos que criem condições para acolher muitos dos investigadores e operadores instalados no PCI. Por outro lado, a relação com a comunidade [também é importante], porque são pessoas que trazem conhecimento e outro nível de exigência que só favorece o nosso crescimento. Ainda há muito pouco tempo foi instalada no PCI a “Digital Factory”, que é um passo em frente que o PCI dá no sentido de valorizar ainda mais a sua oferta e competências.

Para 2028, a sua equipa escolheu dedicar-se à Responsabilidade Social e Ambiental. No âmbito ambiental, quais são as prioridades para colmatar a erosão costeira nas praias?
As prioridades são continuar a trabalhar com a Agência Portuguesa do Ambiente no sentido de construir as soluções que tecnicamente são as mais adequadas a este fenómeno, que cada vez se vai intensificando, nomeadamente com a reposição das areias e dos sedimentos que vão sendo “comidos” pela mar. [Queremos uma] gestão mais inteligente dos pontões que se vão semeando pela costa, porque esse é o grande drama da erosão costeira: o número de pontões e a forma como se vai gerindo o seu estabelecimento, porque cada vez que colocamos um pontão estamos a deslocar e a aumentar o problema para sul. Isto, porque o movimento normal das marés é de norte para sul e, nesse movimento, arrastam-se areias e sedimentos. Cada vez que colocamos um obstáculo a esse curso normal da maré, esta embate e muda o seu curso, sendo que quando regressa “come” muito mais do que “comeria” se se deslocasse em linha reta. Cada um protege a sua praia e depois leva o problema para sul, para o vizinho, é muito complicado.

Como tenciona fazer face aos fluxos intensos nas prai­as durante o verão?
Nós temos um problema complexo nas nossas praias nesse período. Pensámos, por exemplo, numa solução de estacionamento na Barra, em terrenos caríssimos que não são rentabilizados em dois meses de estacionamento. Portanto, temos que fazer um modelo de gestão mais adequado a estes fluxos rodoviários e temos várias soluções entre mãos: estamos a equacionar com a Ria Viva a possibilidade de, na Rua Ria Mar, ao lado da ria, criarmos uma plataforma de estacionamento que aumenta em cerca de 500 os lugares nesta zona; queremos também criar, na rotunda da Barra, naquela zona de areia não construída, uma zona de estacionamento. Temos que começar a equacionar muito seriamente, mas mais a longo prazo, a possibilidade de criar uma bolsa de estacionamento, a montante da ponte, na Gafanha de Nazaré, e depois levar as pessoas por meios suaves até às praias, nomeadamente por autocarros elétricos, com uma via dedicada só aos residentes e outra para estes meios. Mas não é uma solução que consigamos adotar no próximo ano, temos que esperar mais algum tempo.

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Dezembro 18, 2025 . 09:00

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