
O coveiro que não quer ser enterrado
A nossa reportagem falou com Paulo Carvalho, de 65 anos, num final de tarde, perto da hora da missa, à entrada do Cemitério de Fornos [concelho de Santa Maria da Feira, onde é coveiro. E foi no decorrer da conversa - que, volta e meia, era interrompida por pessoas que o conheciam e que, a caminho das sepulturas dos seus entes queridos, o cumprimentavam - que ficámos a saber deste seu desejo expresso, junto da família. «Já disse à minha mulher e aos meus filhos que quero ser cremado», referiu, justificando que o fazia, sobretudo, por duas razões: «Primeiro, por [uma questão de] higiene. Depois, porque não quero dar trabalho à minha mulher. Não quero que esteja sempre a ir ao cemitério enfeitar e pôr velas». «Às vezes», prosseguiu, «dizem-me “andas a enterrar os outros, mas alguém também vai-te enterrar. Digo logo que não quero, que quero ser cremado».
Hoje em dia, como chamou a atenção, «há cada vez menos quem queira fazer o que eu faço [sepultar cadáveres]». E, no futuro, em seu entender, «a cremação vai ser a solução». Futuramente não. Já é.
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