
Medicina e humor: é muito mais o que os une do que aquilo que os separa
Além das consultas de Medicina Geral e Familiar na GlobalClinic (Albergaria-a-Velha), o Carlos tem tido muitos espetáculos. Como é que arranja tempo para isto tudo?
Sim, é verdade. Tenho andado de um lado para o outro, a percorrer o país. E, olhe, tenho-me “dividido” entre a escrita, o humor e a medicina. Acho que o truque é não fazer muita ideia de como é que tudo isto se processa. Vivo o momento, o minuto, o dia a dia, devagarinho. E vou tentando gerir o tempo consoante as coisas que me aparecem. Ultimamente, por acaso, os fins de semana têm sido bastante preenchidos, mas, hoje em dia, também já há muitos festivais e espetáculos durante a semana, sobretudo eventos corporativos que as empresas realizam à semana.
Como é que surgiu o “stand up comedy” na sua vida?
Olhe, foi por uma estupidez [risos]. Na altura, seguramente há mais de dez anos, já escrevia muitas coisas. E eis que um dia soube que ia haver um concurso. Era uma “Speed Battle” (um humorista contra o outro) do 5 Para a Meia-Noite, da RTP1. Mandei para lá o que pediam e fui selecionado. Fui passando, edição após edição, e acabou por correr bem.
Mas sempre foi, assim, “engraçadinho”?
Depende muito de quem está a observar [risos]. Na ótica do utilizador, julgo que sim. Já quando era mais novo, adorava usar o humor no meu dia a dia. Era uma tentativa de ganhar ao tédio quando estava na escola. Nunca gostei de andar na escola. [No secundário] Comecei por ter aulas de 45 minutos; depois, passei a ter de 90. E era obrigado a estar numa sala, fechado, a ouvir professores a falarem, o que sempre me causou um bocado de espécie. Então, através do humor, tentava que aquele tempo se tornasse um bocado mais aprazível.
E já na altura as suas piadas eram boas?
Lembro-me, por exemplo, das autoavaliações, que, no meu caso, eram textos de humor. Imagine só que eu justificava o porquê de merecer um 5 numa autoavaliação quando chegava atrasado às aulas e, por isso, claramente, não merecia aquela nota. Mas a verdade é que criava ali um tal enredo, que as pessoas acabam por rir.
Fazia rir os próprios professores?
Sim, o meu desafio era esse: obviamente, sem faltar ao respeito a ninguém, tentar fazer com que se rissem. Tinha professores que nunca ninguém os tinha visto a sorrir e o meu desafio era fazê-los sorrir.
Sabe quantos espetáculos é que deu até ao momento?
Não faço ideia. Nem faço essas contas, porque até é uma vergonha. Diz muito do estado do país. Ninguém merece [risos]. Umas centenas, talvez.
Quando começou a carreira como humorista, pensou que ia chegar até onde chegou?
A única coisa que sempre quis, foi ter uma ideia, colocá-la em prática e ter pessoas interessadas em assistir. Mas sempre com os pés bem assentes na terra. Não podemos tomar nada como certo. Há tempos falava com um produtor sobre isso: que quando acabo um espetáculo acho sempre que pode ser o último. Por isso, deixo sempre tudo em palco.
O bom humor faz parte das receitas que passa aqui neste consultório?
Quando me perguntam essa parte do bom humor e do riso nas consultas, digo sempre que isto aqui não é como um espetáculo, mas nós temos a mesma forma de conseguir chegar ao público. Ou seja, as palavras aqui são muito importantes, tal como num espetáculo de humor. O humor nas consultas é muito importante, mas temos de saber ler, caso a caso. Por exemplo, se alguém entrar aqui triste, com uma depressão, e eu estar muito bem-disposto, não será fácil chegar à pessoa, até pela questão empática. Ou seja, o humor é importante sim, mas é preciso sabermos ler a situação, o quadro clínico, para conseguirmos adaptar o nosso discurso e a nossa forma de estar à pessoa em causa.
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