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Cães-guia: muito mais do que olhos, uma ponte para a autonomia

Parceiros de quatro patas desempenham um papel indispensável na sociedade, promovendo autonomia e vínculos emocionais, e revelam-se “vitais” na rotina das pessoas cegas

No Dia Mundial do Animal, celebramos não apenas a vida dos nossos companheiros de jornada, mas também o impacto profundo que eles têm na nos­sa sociedade. Entre esses vínculos especiais, ganha destaque o papel, no entanto silencioso, dos cães-guia, os quais emergem co­mo verdadeiros par­ceiros de liberdade para pessoas com deficiência visual. Mais do que olhos atentos, eles são sinónimo de autonomia, confiança e dignidade, no que representa a força da relação entre humanos e animais na construção de um mundo mais inclusivo.

«O cão-guia representa tudo»

Para Jorge Anjos, ex-presidente da ACAPO e utilizador de cães-guia há mais de duas décadas, o impacto destes animais na vida de uma pessoa cega é incalculável. Ao lado do seu atual com­panheiro, o Hendrix, não hesita em afirmar o papel do animal. «O cão-guia repre­sen­ta a nossa autonomia, a nossa independência, a nos­sa confiança. Representa tudo. Es­te cão é co­mo um filho. A ligação que temos é in­des­critível», co­men­tou em en­tre­vis­ta ao Di­á­­rio de A­v­ei­ro.

O primeiro contacto de Jorge Anjos com esta realidade aconteceu em 1998, ano em que surgiram os primeiros cães-guia formados em Portugal, quando ainda tinha alguma visão. Des­de então, partilhou a vida com a Camila, a Farrusca, o Quito, o Bengo e, agora, o Hendrix.

Uma dupla inseparável

A relação entre uma pessoa cega e o seu cão não se resume a ordens e obediência. «Nós formamos uma dupla com o cão. Ele dá-nos muito, mas nós também temos de lhe dar. O brincar, o bom trato, a atenção... É uma relação de dupla, não de dono e animal», mas essa cumplicidade não dispensa momentos de firmeza. «Quando é para dar ordem, é dar ordem. Não é com agressividade, mas com voz firme, para o cão per­ce­ber que está a ser comanda­do. As pessoas às vezes até pensam que estamos a ralhar, mas é apenas disciplina», explica.
Em Portugal, a responsabilidade pela formação e atribuição dos cães-guia pertence à As­sociação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV), com sede em Mortágua.

Desde 1999, já entregou mais de 245 cães, criando duplas que transformam vidas. O processo é exigente: começa na seleção dos cachorros, que devem ter saúde perfeita e tem­pe­ra­mento equilibrado, passa por famílias de acolhimento e cul­mi­na no treino específico com arnês. Quando chega a fase da atribuição, é preciso encontrar o que melhor se adapta ao utili­zador. «Se eu peço um cão rá­pi­do, não me podem dar um cão de marcha lenta, senão é um desatino», explica Jorge Anjos.

Para além dos olhos

Nas ruas, os cães-guia des­per­tam olhares e muitas vezes suscitam gestos de carinho. Mas há cuidados a ter. «Quando o cão está de arnês, está a trabalhar. Não é conveniente as pessoas interpelarem o cão. Se quiserem fazer uma festa, devem falar comigo, que sou o utilizador. Dou ordem ao cão para se sentar e só aí a pessoa pode interagir», explica Jorge Anjos, aproveitando também para deixar um aviso importante: nunca se deve dar comida ao cão. «O dono é que sabe quan­do e o que deve dar. Não podemos ter pessoas a dar bolachas na rua. O cão tem horários e rotinas muito específicas resultantes do treino recebido», apontou.

O cão-guia não decide por si, a sua função é ser o prolongamento da pessoa, ajudando-a a detetar obstáculos, apresentar portas, escadas ou passadeiras e a caminhar em segurança. Mas, como reforça Jorge Anjos, o papel vai muito além do que se pensa. «Não é só aju­da para andar. É confiança para viver».

Outubro 4, 2025 . 08:15

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