
Ideias, críticas e defesa cerrada subiram ao palco em Oliveira do Bairro
O Diário de Aveiro e o CanalCentral promoveram, anteontem, mais um debate no âmbito das eleições autárquicas, desta vez entre os candidatos à Câmara Municipal de Oliveira do Bairro. Duarte Novo (CDS-PP), Joaquim Ribeiro (CHEGA), João Sousa (CDU), José Soares (PSD) e Miguel Tomás (PS) estiveram no Quartel das Artes para discutirem algumas das áreas fundamentais da governação, num debate moderado pelo diretor-adjunto executivo do Diário de Aveiro, João Luís Campos.
O potencial do turismo e da agricultura
A mão de obra pouco qualificada e a reduzida presença de grandes empresas no concelho foram os principais problemas apontados por Joaquim Ribeiro a nível económico. Sem falar em medidas concretas, o candidato do CHEGA salientou a necessidade de atrair empresas com valor acrescentado para o concelho e promover uma mão de obra mais qualificada. Por sua vez, José Soares, do PSD, salientou as mesmas necessidades, ao mesmo tempo que criticou a reduzida dimensão dos lotes industriais e a «burocracia» camarária que dificulta as suas junções.
Defendendo o legado que construiu até ao momento, o atual líder do executivo camarário, que se candidata ao terceiro mandato, Duarte Novo, destacou que a mão de obra no concelho é hoje «muito mais» qualificada do que outrora e que o “know how” de capital intensivo é já significante. Para além de defender a ampliação das zonas industriais, o candidato do CDS-PP apontou que o município deve continuar a promover articulações entre entidades de ensino e as empresas, bem como «eliminar um conjunto de burocracias» de forma a ajudar os empresários. «Para criar uma empresa, ter empregados e acesso a apoios são necessárias burocracias que é preciso alterar e esse é o nosso primeiro desafio». Para o candidato socialista, as parcerias com estabelecimentos de ensino para facilitar a formação e o acesso ao conhecimento por parte dos cidadãos são também essenciais para enriquecer o tecido empresarial. Outra das prioridades para Miguel Tomás é estimular o consumo de produtos locais. «Padecemos do mal de os munícipes se deslocarem para os grandes centros urbanos em busca do que procuram», sustentou. Para inverter a tendência, o candidato propõe criar projetos que promovam e estimulem os produtores locais.
Demonstrando-se contra as «grandes concentrações da produção», devido à poluição, João Sousa prefere antes investir na agricultura e no pequeno comércio local. «A pequena e média agricultura bem estimulada é sempre boa, em todos os aspetos: em questões ambientais, frescura ou nutrientes». O candidato da CDU relembrou que nas últimas eleições sugeriu que as cantinas no concelho pudessem ser fornecidas com produtos agrícolas produzidos localmente. Já o candidato do PSD sugere a articulação com as cooperativas oliveirenses para «potenciar o território» e fazer a «ligação» entre o mundo agrícola e as grandes superfícies. Também Duarte Novo destacou que a câmara poderá, com as cooperativas do concelho, promover o «ajuntamento de terras aráveis».
No âmbito do desenvolvimento económico, o turismo também foi debatido, com o candidato do PSD a defender uma maior exploração do potencial do turismo da natureza no território. «Através do marketing podemos potenciar a rota do arroz, os rios Levira e Cértima, ganhar escala e captar empreendedores para um ou mais equipamentos hoteleiros», sugeriu. Para Miguel Tomás, a zona da Pateira pode ser melhorada e dotada de equipamentos que atraem mais pessoas para o concelho. Mas sobre o aproveitamento desta zona, Duarte Novo deu conta de que o município já se encontra a desenvolver o Projeto Ria Viva, que inclui o local. «O município integra a CIRA e algumas das suas rotas turísticas, principalmente pedestres e cicláveis. É uma das bases que transfiguram e ligam toda a nossa região, aproveitando aquilo que temos de melhor, que são as nossas zonas ribeirinhas», adiantou ainda. O candidato do CHEGA questionou o atual líder do executivo sobre o turismo industrial, que tem sido potenciado pelo município, demonstrando-se céptico em relação à respetiva adesão e realçou, tal como o candidato do PSD, a necessidade de um melhor aproveitamento da Cerâmica Rocha.
A mobilidade no concelho
Para o candidato do PSD, os horários dos transportes no concelho não são compatíveis com as «dinâmicas da sociedade» e são «extremamente caros» para alguns cidadãos. Sobre as ligações entre Oliveira do Bairro e a região envolvente, José Soares considera que são «muito más», denotando o «grande» esforço que terá de ser feito para melhorar estas articulações. «Teremos que começar a projetar e a materializar uma cintura externa que vá circular no concelho e tocar na zona industrial de Bustos e da Mamarrosa, e que vá também para a ligação à A17», apontou ainda.
Para o CHEGA, a «reestruturação» da rede viária e a sinalética também são uma preocupação. Sobre os desvios de trânsito, Joaquim Ribeiro criticou a falta de saídas de fuga e, em relação ao TGV, o candidato reforçou que é necessário «acautelar» os proprietários dos terrenos. Reverter a falta de segurança, de táxis, vigilância e de sinalética na estação de comboios foram também medidas avançadas.
«Não há uma única referência sinalética no que respeita à circulação de bicicletas e velocípedes e isto é um sinal de que não estamos a acompanhar a evolução de outros locais», avançou, por sua vez, o candidato do PS. Constituir um grupo de trabalho que procure alternativas à circulação de pesados no centro de Oliveira do Bairro e, junto do Governo central, perceber o impacto da passagem do TGV em Oiã, com o objetivo de potenciar a zona e atrair investimento são também algumas das prioridades de Miguel Tomás, para além da melhoria da qualidade das estradas.
«Não vai haver nenhuma paragem do TGV em Oiã, vai existir apenas uma divisão ferroviária», esclareceu Duarte Novo. Reconhecendo também que os horários dos autocarros podem não ser práticos para todos, o candidato do CDS-PP assegurou que existem «muitas ligações» no território, que o investimento na reestruturação viária tem sido feito e que o acesso à A1 é «crucial» para resolver os problemas apontados por alguns dos candidatos ao nível da rede viária, tais como a circulação de pesados no centro.
Para o candidato da CDU, a criação de um «passe social» para que os cidadãos «deixem o carro» e comecem a usar cada vez mais os transportes públicos no concelho foi apontada como uma possibilidade.
Os problemas da habitação
Assinalando o caminho que tem vindo a ser feito no município ao nível da habitação social, sobre o futuro, Duarte Novo apontou para os regulamentos aprovados recentemente na assembleia municipal. «O município vai poder arrendar e colocar fogos em subarrendamento, a custos controlados, e o regulamento de benefícios fiscais também vai permitir que os cidadãos possam fazer investimentos tendo uma franja de benefícios muito maior, permitindo depois um arrendamento a valores muito mais acessíveis». O recandidato do CDS-PP sublinhou ainda que a iniciativa privada tem permitido que jovens casais se fixem em Oliveira do Bairro, também «povoando um conjunto de habitações» que se encontravam devolutas.
«O paradigma sobre a habitação pública tem que mudar», asseverou o candidato socialista. «Não podemos continuar a achar que a habitação pública é habitação social, porque ao transmitir esta ideia estamos, desde logo, a segmentar um conjunto de pessoas que, por razões diversas, não têm possibilidade de adquirir uma casa com melhores condições». Para Miguel Tomás, é necessário olhar para o modelo de países da Europa Central, como a Holanda, a Bélgica ou a Áustria, que «oferecem habitação pública de melhor qualidade e capaz de dar resposta aos cidadãos ou jovens» que têm um emprego e família estáveis, com rendimentos médios ou acima da média. «Iremos recorrer a tudo o que estiver ao alcance do município para construir esse tipo de oferta», garantiu.
Para João Sousa é fundamental que haja um equilíbrio entre a oferta de habitação pública e privada. «No PCP e na CDU não somos contra o privado, mas tem de haver um equilíbrio», realçou o candidato, que defende a reabilitação das habitações devolutas no concelho e a reabilitação de edifícios, como o antigo complexo desportivo, para construir habitação social. Também José Soares, do PSD, realça a necessidade de reabilitar o «máximo de património» possível e, em simultâneo, agilizar processos burocráticos da câmara municipal neste domínio para garantir respostas mais céleres.
Já o CHEGA defende o loteamento de terrenos a baixos custos para fazer construção pública e privada em todo o município. «Temos de distribuir a habitação construída por todo o concelho, mas a custos controlados».
As medidas para a ação social e a saúde
Para a área da ação social, o candidato do CHEGA defende um maior apoio às IPSS e, pelo menos, a criação de uma creche em cada freguesia. «Se a gente quer meter pessoas aqui em Oliveira do Bairro, temos que criar condições para que a classe trabalhadora possa deixar os filhos num local ideal, que tenha horários alargados». Para Joaquim Ribeiro, os profissionais de saúde existentes em Oliveira do Bairro também não são suficientes para satisfazer as necessidades do município. Lamentando que o Hospital de Anadia não se tenha fixado no território, o candidato quer incentivar os médicos a permanecerem e a irem para o concelho, através da criação de «condições» e de uma «rede de apoios».
Diagnóstico diferente traça o candidato do PSD, que considera que as infraestruturas, assim como os profissionais de saúde existentes, têm vindo a «estabilizar» e a satisfazer as necessidades dos oliveirenses. Para José Soares, os esforços e investimentos da câmara municipal devem ser direccionados para uma intervenção preventiva. «Podemos criar equipas com empresas, voluntários e com o SNS, se possível, que vá fazer ações de prevenção da doença junto da população», avançou. Em relação à população envelhecida, o social-democrata quer fortalecer a relação com as IPSS. «Não queremos de todo ser protagonistas. Nós queremos ser parceiros e vamos procurar sempre que haja interação com associações, juntas de freguesia e coletividades».
Miguel Tomás realçou a necessidade de investir nas infraestruturas físicas de saúde e de fomentar o trabalho de articulação com as IPSS. Sobre as creches, o socialista reconheceu que o município não tem conseguido dar resposta aos pedidos da população, pelo que defende a criação de unidades de creches nos atuais polos escolares do 1.º ciclo.
Por sua vez, João Sousa defendeu o papel desempenhado pelo PCP de Oliveira do Bairro na defesa do SNS e criticou o «desaparecimento» dos postos médicos de proximidade. «Nestes postos, os idosos tinham um refúgio para desabafar com o seu médico de família, muitas vezes combatendo a solidão. Acabarem com estas unidades foi um erro, ainda que se tenham criado as ULS, elas não têm satisfeito as necessidades. Há que arranjar centros que possibilitem a proximidade».
«As decisões tomadas na área da saúde foram decisões governamentais, que nada tiveram que ver com decisões autárquicas», defendeu-se o atual líder do executivo camarário. Sobre as questões sociais, Duarte Novo considera que o papel das IPSS é «determinante» e relembrou a criação do Campus da Idade Maior. «É um espaço que terá técnicos para dar apoio, não só a cuidadores informais, mas às nossas IPSS, às pessoas que estão em casa, assim como dar apoio e estabelecer sinergias com as universidades seniores». Os objetivos nesta área, partilha o recandidato do CDS-PP, passam pela criação de condições para que a população com mais de 65 anos possa continuar a «ser útil à sociedade», ter uma vida ativa, praticar desporto e desenvolver múltiplas atividades sem que se tenha de deslocar ou sair da sua área de residência.
Para Duarte Novo, a prioridade é fazer com que o internamento em lares ou residências seja considerada a última opção para os seniores. «Temos feito o que conseguimos no que toca aos lares, mas entendemos que o internamento deve ser sempre a última opção».










