
Tiago Cação diz que «é urgente devolver a cidade às pessoas e não aos carros»
O ultramaratonista e ativista da mobilidade Tiago Cação esteve, ontem, na região de Aveiro, no âmbito do Projeto 278, um desafio que o levará a percorrer 6.000 quilómetros de bicicleta para entregar cartas a todas as autarquias do país. Determinado a concluir a travessia que começou em junho e que foi interrompida por problemas de saúde, o ciclista apresenta o objetivo claro de lançar o debate sobre a mobilidade urbana em Portugal e pressionar os decisores locais a inverter o domínio do automóvel.
Automóvel domina as cidades portuguesas
Em entrevista ao Diário de Aveiro, Tiago Cação não esconde a urgência que sente. «O espaço público das nossas cidades está maioritariamente entregue ao automóvel. É urgente devolver a cidade às pessoas e não aos carros. É crucial que esta realidade mude, e as políticas autárquicas têm aqui um papel fundamental, porque são elas que têm o poder de transformar as cidades». O atleta lembra que continuamos atrasados em relação a muitas cidades europeias, apontando exemplos como Paris, Londres, Manchester, Barcelona ou Madrid, onde devolveram ruas e avenidas às pessoas, aos transportes públicos e às bicicletas.
Bicicleta como um direito das crianças
Um dos pontos que mais o preocupa é a falta de condições para que as crianças se possam deslocar de bicicleta. «Hoje parece normal que uma criança não possa ir para a escola de bicicleta sem correr riscos. Mas isso é que devia ser anormal. O mais natural seria as crianças poderem deslocar-se de forma autónoma, em segurança, numa rede pensada para elas», explica.
Projeto 278: cartas para mudar mentalidades
O Projeto 278 consiste em entregar uma carta a cada um dos 278 municípios de Portugal continental, com duas recomendações redigidas pela MUBI - Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta. O objetivo é que estas propostas entrem na agenda política em plena pré-campanha autárquica. «Queremos colocar o tema da mobilidade no debate local, onde ainda não entrou de forma séria. Basta ver que só Lisboa e Porto têm levantado o assunto», refere o ciclista. O atleta também destaca que o “feedback” das câmaras tem sido encorajador, com destaque para Valongo, que se considera um exemplo nacional pelo conjunto de medidas implementadas e reconhecidas com prémios internacionais.
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