
«Há muitas bicicletas minhas por aí»
As bicicletas são um assunto muito sério na Gafanha da Nazaré. Nem pensar, por isso, em confiar a qualquer leigo a incumbência de integrar o júri do concurso da Volta ao Cais em Pasteleira, uma das principais atividades anuais do Festival do Bacalhau. Os escolhidos estavam encarregados de avaliar as velhas máquinas participantes – examinaram os quadros, as pedaleiras, os selins, os farolins, os guiadores. Nenhuma peça escapou ao seu olhar clínico.
O construtor de bicicletas Noca Ramos e o professor António Rodrigues, dinamizador do GafBike, projeto que restaura bicicletas antigas e depois as atribui a membros da comunidade escolar, foram dois dos eleitos para tão grande responsabilidade. O terceiro foi João Vinagre. Um funcionário do município comentou que pela sua oficina passam muitas das bicicletas que circulam na Gafanha da Nazaré. Nasceu logo ali a vontade de falar com ele.
O contacto deste homem de 73 anos, um antigo maquinista naval, é-me fornecido por António Rodrigues. Quando lhe telefono, aceita imediatamente receber-me. A casa de João Vinagre, no número 144 da Rua Camilo Castelo Branco, é um santuário benfiquista. No jardim da frente esvoaça uma grande bandeira do clube; na oficina, um boné está pendurado no guiador de um bicicleta; e no interior da casa reparo num calendário e num prato pendurado na parede. Para onde quer que se olhe, alguma coisa se há-de descobrir com o símbolo do Benfica.
Para anunciar a minha chegada, puxo um arame que está ligado ao badalo de um sino, fazendo-o tinir no interior da garagem, o sítio da casa onde conserta as viaturas de duas rodas. Entro para aquela divisão, o seu consultório, onde está de volta de uma bicicleta suspensa no ar graças a um suporte metálico que a sustém. Tem uns 60 anos. «Estava cheia de ferrugem. Tive de a desmontar toda», conta. «É para entregar hoje ou amanhã».
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