Gente quase educada
A Segurança Social anunciou que, em cinco anos, descobriu mais de 1.600 lares ilegais. A coisa assim apresentada até parece um escândalo. Mas falar em ilegalidade não tem de significar necessariamente insalubridade ou desumanidade.
Na maioria das vezes, ilegalidade significa que a rampa não tem o milímetro certo, que o corrimão não cumpre a norma europeia 47-B ou que a porta é três centímetros mais estreita do que o manual exige.
Vivemos no país onde abrir um lar legal é mais difícil do que abrir um hotel de cinco estrelas.
Para acolher turistas, basta ter dinheiro e cumprir requisitos claros.
Para acolher idosos, é preciso convencer o Estado de que serão tratados melhor do que hóspedes num SPA suíço.
Tudo isto num país onde a reforma mensal da maioria dos pensionistas não poderia pagar sequer uma semana num hotel de duas estrelas.
As leis foram escritas por gente que nunca cuidou de um idoso, nunca precisou de encontrar um lar a preço humano e, provavelmente, nunca entrou num lar fora de uma visita oficial – nesses momentos, com cheiro a lixívia aromatizada no ar e tapete vermelho à porta.
A fiscalização é cega: se a norma manda que a porta abra para a esquerda, abre-se para a esquerda, mesmo que abrir para a direita fosse salvar vidas.
Enquanto isso, no mundo real, as famílias correm contra o tempo, divididas entre empregos, filhos e contas. Só que “correr contra o tempo” é, muitas vezes, uma forma elegante de dizer “não tenho tempo para cuidar dos meus pais”. E, na prática, a equação reduz-se a isto: entre o lar legal (caríssimo) e o lar “ilegal” (pagável), a escolha não é moral. É matemática.
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