Violência doméstica
Pois a dita senhora está errada e a razão é que considera educação no contexto apenas da aquisição de conhecimentos e, de facto, saber matemática ou física não garante um bom comportamento doméstico. Razão por que há muito defendo que a educação, pela via dos conhecimentos, pode dar melhores condições para exercer uma profissão, mas não garante que os beneficiários desses conhecimentos tenham comportamentos próprios das pessoas civilizadas, tanto num meio de relações pessoais como sociais. Como costumo dizer, entre a horda que invadiu o Congresso dos Estados Unidos, ou entre os milhares de pessoas que são conduzidas aos estádios de futebol entre filas de polícias, devem estar muitos licenciados ou mesmo doutorados, mas isso não significa que sejam pessoas educadas.
Há muito que defendo que a educação deve compreender a formação dos comportamentos, como deve fornecer determinadas competências, de preferência nos primeiros anos de vida, através das creches e do pré-escolar. Fase da vida que, para ser de verdadeira formação, deve compreender formadores altamente qualificados, boa alimentação e transporte. Sendo o transporte essencial para disciplinar a frequência dos muitos milhares de crianças das famílias de menores recursos. Crianças que, no presente, chegam ao ensino oficial aos 6 ou 7 anos em condições muito desfavoráveis relativamente aos seus colegas oriundos de famílias de maiores recursos.
Nos comportamentos, estou a pensar em coisas tão simples como chegar a horas, respeitar todas as pessoas e as suas opiniões, por mais diferentes que essas pessoas sejam, métodos de higiene e de disciplina em todas as suas vertentes, ou aceitar as tarefas próprias da sua idade e aprender a valorizar o trabalho. No campo das competências, temos a de saber nadar, fazer desporto, aprendizagem musical, tarefas domésticas, etc..
Em Portugal valoriza-se, por vezes excessivamente, o ensino universitário, para onde são dirigidos os maiores financiamentos do Estado. Todavia, é a formação nos primeiros anos de vida, quando as crianças estão abertas a absorver uma enorme quantidade de ideias e de bons hábitos que ficam para a vida inteira, que é o tempo certo, em que se pode criar uma sociedade mais livre, mais equilibrada e mais justa. Não compreender isso, como a senhora que ouvi na TSF, é perder a maior oportunidade de melhorar e transformar a sociedade no seu conjunto.
Infelizmente, nas sociedades modernas, como em Portugal, abundam as famílias muito pobres, destruturadas, com crianças criadas na rua, com casas onde não há livros, crianças que nunca foram a um teatro, não poucas vezes sobrevivem em meios violentos, vidas em tudo diferentes das famílias de maiores recursos, com crianças cujos pais cuidam das suas aprendizagens. Razão por que, à entrada do ensino oficial, essas diferenças de desenvolvimento deveriam ser avaliadas e documentadas, para que os Governos possam ganhar a consciência de que a educação dos conhecimentos é insuficiente para a formação de seres humanos bem preparados para a vida em sociedade. Ou seja, os maiores investimentos e a mais importante fase de formação reside nas creches e no pré-escolar e não nas fases posteriores do ensino. Não perceber isso é continuar a ter sociedades desorganizadas, violentas e prontas a aceitar todas as teses de mentira que conhecemos.







