Ainda sobre as legislativas
Os socialistas mantiveram e amplificaram o trauma recente, não elegendo deputados nos dois círculos – dentro da Europa e fora da Europa. Os sociais-democratas conseguem dois, um em cada círculo, à imagem do partido de André Ventura, que lhe segue o exemplo, furando a divisão há muito cristalizada entre os maiores partidos da nossa democracia. Até agora. Confirmou-se que o Chega ultrapassa o PS como maior partido da oposição, chegando aos sessenta deputados, ainda assim muito longe dos cento e dezasseis necessários para ter uma hipotética maioria absoluta. Enquanto a direita radical cresce e transforma o discurso em algo comestível ao público, com isso associando-se a uma ideia de exercício de poder, os socialistas encontram-se sem líder, a pouco tempo das autárquicas de outubro, ainda atribuindo culpas ora aos oponentes, ora procurando bodes expiatórios internos, sem acusar diretamente a liderança cessante. Mais preocupante do que a falta de liderança, que tudo indica parece ter José Luís Carneiro como único proponente, é a falta de discurso.
O antigo ministro das polícias, de quem se diz ser muito competente, trouxe consigo o habitual discurso pouco cativante, redondo e vazio de conteúdo. E sendo esta a sua forma de jogar, contrária ao voluntarismo do seu antecessor, nada apregoa que possa vir a ter um efeito contrário, e por isso mais sucesso, nas imensas massas que se mudaram do PS para o Chega e para o PSD. A ideia presente em muitos dos que deram o voto a outros, depois de votarem há muitos anos no PS, de que eles não falam para eles, parece manter-se, agora numa versão mais moderada. Há poucos dias, num trabalho do jornal Público sobre os resultados eleitorais, a jornalista questionava uma moradora em Alenquer que confessou, trémula, que sempre votou no partido de centro-esquerda, mas depois de em 2024 não ter ido votar para não atraiçoar o seu partido de sempre, desta vez confiou o seu voto em Luís Montenegro e na AD. Como aquela eleitora, muitos terão feito a mesma coisa. A entrevistada elencava três razões essenciais. A primeira, o filho com vinte e nove anos, apesar de ter habilitações ao nível do mestrado, não conseguia um trabalho fixo e, por essa via, não conseguia autonomizar-se e sair de casa. A segunda, reportava-se à filha, enfermeira, que lhe contava o caos em que sobrevivia todos os dias no hospital público em que trabalha, devido às cativações e aos enormes cortes de investimento feitos no tempo de António Costa (e, solidariamente, por Pedro Nuno Santos). A terceira e última premissa para o seu desapontamento tinha a ver com o passe ferroviário, implementado pelo governo da AD, que muito jeito lhe dava em termos de contas ao fim do mês. Chegou à conclusão de que o seu partido deixou de falar para si, e para muitos como ela, encontrando maior conforto no discurso e na concretização do executivo atual. O resto já sabemos: se os votos não foram para Luís Montenegro, foram para André Ventura.
A falta de discurso do PS, sendo perigosa para a democracia, era expectável. Há muito que, eleição após eleição, o conhecimento empírico e académico conhecidos já anunciavam o que agora se constata com maior rigor: os jovens não se reveem nos socialistas e os pensionistas, que depois da troika encontraram no PS um porto seguro, voltaram agora ao ponto de partida. Os socialistas governaram vinte e dois anos dos últimos trinta, o que é obra. Obra que os eleitores não veem, vidas duras que não melhoraram, serviços públicos que pioraram muito desde que o presidente do Conselho Europeu passou a presidir ao Conselho de Ministros. António Costa tem muita culpa do estado em que se encontra o seu partido, acusação que ninguém fará, pelo menos enquanto ele tiver as atuais funções. Um pretenso moderado, que governou depois de perder eleições com os partidos mais à esquerda do hemiciclo, deixando o país pior do que o encontrou, e o PCP e o BE muito perto de uma morte cerebral que, podendo vir a ser uma realidade, chegou mais depressa do que se esperaria.
O mapa eleitoral ainda poderá mudar bastante, mas isso dependerá, em larga medida, do que mudar o discurso e a ação de quem nos tem governado. Nem sempre bem, mas ainda a tempo de mudar para melhor. Comece-se pelas palavras, depois pelas pessoas. As eleições autárquicas serão apenas um interregno.







