
«Vivemos numa sociedade que santifica a mãe, mas penaliza a maternidade»
Diário de Aveiro: Quando começa a maternidade? Quando o bebé nasce ou quando a mulher engravida?
Sónia Soares Coelho: Para a psicanálise, a maternidade começa antes do nascimento: no momento em que a mãe imagina e fantasia o bebé, “engravidando” de três bebés: o imaginário (feito de desejos, expectativas e idealizações), o fantasmático (marcado por traumas, desejos e fantasias inconscientes, “fantasmas”, projectados pela mãe), e o real - a criança concreta, com personalidade e características únicas, que nasce e vive fora das fantasias e dos ideais da mãe. O confronto entre o bebé real e as representações imaginárias ou fantasmáticas pode ser uma fonte de tensão e gerar sofrimento, mas é essencial para que a mãe se relacione com o filho, tal como ele é. Todavia, quando só existem frustrações, descontentamentos e/ou comportamentos repetitivos e dificuldades emocionais, transmitidos de geração para geração, a psicanálise oferece-nos ferramentas valiosas para reconhecer e explorar estas dinâmicas complexas, promovendo um desenvolvimento mais equilibrado e saudável.
Por que é que a ideia da “mãe perfeita” continua a assombrar tantas mulheres?
Imaginar, fantasiar, ter e criar um filho é, cada vez mais, uma aventura superegóica, pondo em marcha a culpa materna. Esta culpa é proporcional ao desejo de ser uma mãe perfeita. Quanto mais a mãe deseja que tudo corra bem, maior é a culpa, ao sentir que tal não está a acontecer. Porque nunca poderia acontecer: não há, nunca houve e nunca vão existir “mães perfeitas”.
Como é ser mãe no século XXI, num contexto de exigências impossíveis e redes sociais que ditam normas emocionais?
Vivemos numa sociedade que santifica a mãe, mas penaliza a maternidade. O problema que resulta do que dizíamos sobre a “mãe perfeita” é o sofrimento narcísico que esta realidade introduz, que também é proporcional à idealização da “mãe com super-poderes”. Este ideal é, cada vez mais, mantido por um discurso digital em que se promove, como nunca, “a maternidade perfeita”. Pululam as “influencers” que partilham com o seu público o que é mais idílico na maternidade, tratando os seus filhos como extensões egóicas e narcísicas de si próprias, isto é, como “produtos”. Seres que vendem desde a marca das fraldas até à maravilhosa viagem familiar às Ilhas Fiji. Ainda sabemos pouco acerca das consequências que esta exposição desmedida vai provocar nestes filhos, bem como a forma como eles, já mais velhos, a vão percepcionar e interpretar, mas os indícios, no consultório, começam a surgir, e não são animadores. Tarefas como cozinhar, ir às compras, mudar as fraldas, correr com os filhos para a escola e para as cem mil atividades extracurriculares, entre muitos outros trabalhos sem “glamour”, possuem baixo reconhecimento social. É quase proibido dizer das atividades maternas que impõem baixa satisfação, na criação dos filhos. E, se alguém o ousar fazer: “Não faz mais do que a sua obrigação. Quis tê-los, não foi?! Agora aguenta!”.
O que significa, afinal, ser uma “mãe suficientemente boa”?
O conceito psicanalítico de mãe suficientemente boa veio humanizar a maternidade. A ênfase passa a colocar-se não na mãe todo-poderosa, omnisciente e omnipresente, mas na mãe que sabe que falhar a torna humana, o que lhe permite sentir-se capaz de fazer diferente, numa outra oportunidade. Esta mãe tenta responder às necessidades do filho, afetivas e funcionais, mas sabe que não é a única responsável pela sua felicidade. O “erro” passa a ser aceite e compreendido, o que permite lidar melhor com a culpa de que falávamos há pouco. A culpa, de per si, não tem que ser terrível, pois cumpre uma função: pode ser protetora, incitar-nos a transformar, a mudar, a fazer melhor. Agora, se todos os pensamentos da mãe estão consumidos pela culpa, pela censura e pela auto-depreciação, podem vir a tornar-se obsessões diárias, e, aí, é melhor procurar ajuda psicoterapêutica.
No fim de contas, o que é que os filhos mais valorizam nas suas mães?
O que os filhos saudáveis valorizam nas suas mães saudáveis é a sua imperfeição. A forma como são “as mães possíveis”, suficientemente boas. O modo como se deram a eles, à relação, numa dádiva com muitos momentos de felicidade, mas também com muito “sangue, suor e lágrimas”, tentando resolver e transformar toda a panóplia de erros e correções que embebem o “educar”. O cheirinho bom da sua pele, a envolvência protetora do seu colo, a força do abraço, o aviso cuidadoso e irritante do “não te esqueças: vai agasalhado!”. Em momentos de extremo desespero, chamamos por Deus, ou pela Mãe. Não é por acaso. À falta ou distração de Deus, “quem tem Mãe tem tudo!”.











