
«Preciso de deixar a minha marca de alguma maneira, porque só tenho uma vida»
Pode ser um desconhecido para o leitor, mas, nas redes sociais, a projeção de Anthony Vincent e da comunidade SIGA, que criou em setembro, não param de crescer. Embora não goste da palavra “influencer”, o certo é que este “personal trainer”, de 31 anos, natural de Vale de Cambra, tem influenciado, positivamente, muitas pessoas, não só com os seus desafios físicos, mas também com as mensagens motivacionais. A partir do dia 1 de maio, Anthony Vincent vai embarcar no grande desafio de correr (ele que nem gostava desta prática desportiva) do ponto mais a norte (Cevide, em Melgaço) ao ponto mais a sul (Cabo de Santa Maria, na Ilha deserta, em Faro) de Portugal, o que o levará a completar, num mês, 800 quilómetros. «Parece uma loucura, mas é essa loucura que estou prestes a transformar em realidade», disse Anthony Vincent, em entrevista ao Diário de Aveiro, na qual aborda este desafio e fala, também, da comunidade SIGA, que, entre as suas várias vertentes, tem um forte cariz solidário. Fique a conhecer um pouco melhor a história de Anthony Vincent, um homem que se “alimenta” de desafios.
Diário de Aveiro: A 1 de maio vai dar início à maior aventura da sua vida. Correr, durante um mês, entre Melgaço e Faro. Já disse, em vídeos que publicou nas redes sociais, que «parece uma loucura impossível», mas que «tudo é assim até ser alcançado e realizado». É esse o espírito que imprime em tudo o que faz?
Anthony Vincent: Sim, de momento sim. Antigamente não, mas acredito que todos nós passamos por uma fase em que surge um clique, e a partir daí apostamos as fichas todas e não olhamos para trás. E quanto mais louco é o “impossível”, melhor... será a recompensa.
O que é que o levou a querer percorrer o país de uma ponta à outra?
Preciso de algo que me obrigue a ir procurar um patamar superior físico e mental, que me crie o máximo de desconforto, porque, com isso, provavelmente, vêm enormes conquistas de todos os sentidos. Preciso de deixar a minha marca de alguma maneira, porque só tenho uma vida e não quero chegar aos 100 anos e dizer: «Devia ter arriscado, agora estou arrependido».
A ideia começou a ganhar forma quando correu 50 quilómetros pela primeira vez. Na altura pareceu-lhe «absurda»! Entretanto, no final de dezembro, chegou a experienciar o que é correr 100 quilómetros. Se a mente acredita, o corpo faz o resto?
Sim, esses 50 quilómetros são muito importantes na minha vida. Atingi a marca e, nesse dia, mal parei o relógio, estava a olhar para o oceano, na Praia de Espinho. Sentei-me e percebi que, se estivesse disposto a colocar as horas necessárias, então poderia ir onde nunca imaginei. A mente pode acreditar, mas o corpo tem de estar preparado. É preciso colocar as horas, não podemos confiar só na capacidade mental. Porém, mesmo com uma preparação incrível e o corpo apto, a parte final é sempre mental. E isso é um treino completamente diferente.
Depois de se propor a avançar para este grande desafio, a preparação física não tem sido descurada. O volume de treinos de corrida em março foi significativo, chegando a somar mais de 600 quilómetros - só numa semana correu mais de 200 quilómetros e houve dias em que os treinos foram duplos. A data começa a aproximar-se… A maior carga de treino de preparação para esta aventura está feita?
Em maio, cada semana terá, em média, 210 quilómetros, por isso esse volume tem de ser atingido na fase de preparação para avaliar o corpo sob stress. Quantos mais quilómetros forem feitos agora, melhor será para o mês do desafio. Volume é a chave nesta missão. Mas, agora em abril, é o mês de “tapering” (redução gradual e manutenção). O que falta fazer é deixar o corpo absorver tudo e recuperar até ao dia 1, sem parar completamente. Mas é preciso saber ouvir o corpo.
Durante o desafio, quantos quilómetros prevê correr por dia?
O objetivo é sempre atingir a marca dos 30 quilómetros, para conseguir ter pelo menos quatro dias de descanso durante o mês. Podem ser feitos seguidos ou repartidos durante o dia. Cada dia é um novo desafio e o cansaço vai sempre aumentar. Gerir e ouvir o corpo é essencial.
Neste desafio no asfalto, num dos dias pretende fazer uma maratona (42,195 quilómetros)...
Sim, porque em certos momentos o ideal é bater essa distância para chegar a determinado sítio, e também para conseguir usufruir de dias de descanso. E, claro, porque é também a minha distância favorita.
Que tipo de apoio terá ao longo do percurso? Sei que irá pernoitar numa autocaravana…
Vou ter quatro pessoas comigo, uma para cada semana, que serão os condutores na maior parte do tempo, e, claro, vão-me apoiar no que for preciso e partilhar a aventura comigo. São pessoas muito especiais e vão trazer muita alma ao projeto.
A autocaravana não tem o tanque de água fria onde gosta de “mergulhar” as pernas após os treinos! Já pensou numa solução equivalente para ajudar na recuperação?
Vou arranjar alguns tanques e rios pelo caminho, mas tenho técnicas e algum material específico, que é segredo até ser divulgado.
E como será a alimentação? Ironicamente, já disse que «será à base de alcatrão», porque a estrada será a sua companheira constante...
Alcatrão com pão e pesto, e siga! (risos) Tentarei manter a minha alimentação normal, porém a ingestão calórica será, claro, bastante elevada.
Que sensação espera ter assim que chegar (de barco ou a nado) ao Cabo de Santa Maria?
A sensação de que ainda só dei 20 por cento das minhas capacidades. Uma sensação de querer mais...
Não tem heróis na sua vida. Gosta de ser o herói da sua própria história?
Já toquei nesse assunto algumas vezes, e, sim, acredito que todos temos um herói dentro de nós. Procuramos muitas vezes a solução fora, quando ela está sempre cá dentro. No fim das contas, ninguém nos vai salvar - e quanto mais rápido nos apercebermos disso, melhor. Por isso, na minha história, eu quero continuar a ser o herói.
Tem noção que há milhares de pessoas que o seguem nas redes sociais e se identificam com os seus princípios e causas em prol do bem-estar? Que os seus vídeos são motivadores e ajudam os outros a lutar pelos seus sonhos? Que há pessoas que nunca correram na vida e que com a sua “boa influência” passaram a fazê-lo?
É um dos melhores sentimentos, não vou mentir. Nunca imaginei e há momentos em que ainda me custa acreditar. Sou muito grato pelo carinho diário que recebo e pelas partilhas pessoais que me enviam. O que talvez não saibam é que me estão a motivar também - ajudam-me a não parar. Sinto que hoje em dia há muita falta de confiança pessoal, e é algo que tento passar no meu conteúdo: mostrar que é possível, mas têm de passar à ação.
Sente-se um “influencer” positivo de saúde e bem-estar?
É uma palavra com a qual ainda não me identifico. Prefiro “criador de conteúdos digitais” ou “o do SIGA”. Saúde mental e bem-estar é algo que defendo com “unhas e dentes”, sim. Se essa é uma das mensagens que estou a passar, fico feliz.
Em marcha rápida, literalmente, está a comunidade SIGA, cujo “slogan” não podia ser outro: “Não arranjes desculpas, arranja soluções”. Criou-a na última semana de setembro, as pessoas têm aderido e, hoje, vemos na rua centenas a envergar a “T-shirt” solidária SIGA. O que esteve na base da criação da comunidade SIGA?
A base veio de uma fase em que eu simplesmente só arranjava desculpas para não avançar com a minha vida. Arranjava sempre desculpas para não apostar nas minhas capacidades. Até que existe sempre um momento nas nossas vidas, que dura segundos, em que se faz luz. Aí decidi começar a arranjar soluções. E com isso percebi que existem milhões de pessoas na mesma situação. Daí a frase.
Para quem não sabe, ao adquirir a “T-shirt” SIGA estará a ajudar a ACREDITAR - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro. Como surgiu esta “parceria”?
Acredito que, se temos possibilidade de realizar boas ações e incentivar os outros a fazer o mesmo, não a podemos desperdiçar. Aqui vou usar uma frase muito conhecida dos filmes de super-heróis: “Com grande poder vem grande responsabilidade”. Queria que quem adquirisse a “T-shirt” soubesse que não estava a comprar apenas uma peça de roupa desportiva ou de uma comunidade, mas sim uma “capa” de herói. Queria - e quero - criar heróis com ela.
Até novembro, conseguiu angariar 2.640 euros para ajudar a ACREDITAR através da venda de mais de 450 “T-shirts” SIGA. Se corrermos em comunidade, será possível mudar o mundo para melhor?
Neste momento já temos mais de 900 encomendas, e, como muitas são “packs”, já ultrapassámos a marca das 1.000 vendidas. Na última contagem feita, na segunda semana de abril, o valor angariado ia nos 6.300 euros. Acho que, quando o povo se junta, consegue mudar muita coisa. Acredito que, no prazo de três anos, a comunidade SIGA esteja a inspirar outras comunidades a juntarem-se a essa missão dita “impossível”.
O Anthony Vincent, hoje com 31 anos, diz-se uma pessoa muito ativa desde a infância. No entanto, em junho de 2024, confessou, nas redes sociais, que «não gostava de corrida». Hoje, menos de um ano depois, vai fazer 800 quilómetros a correr! O que o levou a mudar de opinião é a sensação de liberdade?
Esse pode ser considerado um dos motivos, sim. Mas o verdadeiro motivo é que quero descobrir o meu máximo potencial como ser humano - e a corrida é, sem dúvida, um motor para isso. Algo que passou de impensável para essencial.
Os «grandes sonhos são assustadores e difíceis», mas isso não pode ser motivo para desistir. É uma pessoa com as ideias bem arrumadas?
Não. Não acredito que existam ideias arrumadas. Acredito que estamos em constante evolução, à medida que vamos progredindo na vida. E acredito também que, se os sonhos não forem difíceis e assustadores, então algo está errado.
Muitas pessoas dizem não sentir motivação para a prática de atividade física. Se não tentarem mudar a rotina, se não derem o primeiro passo, se não passarem à ação, alguma vez ganham essa motivação que tanto desejam? Que conselhos daria?
Têm de passar à ação. A motivação pode aparecer lá de vez em quando, mas não vai estar sempre presente. Consistência é a chave. Se apetece, ou não, isso não importa quando os objetivos são mesmo importantes. A atividade física ainda é vista como um castigo, ligada ao sofrimento e ao stress. Essas pessoas têm de começar a ver a atividade física como uma peça que vai transformar completamente a vida delas.
«Nunca deixes que te digam que estás a ficar velho e acabado, tu é que decides isso» é uma frase sua. É, a seu ver, uma expressão que a sociedade ainda vai verbalizando para justificar a falta de capacidade de alguém para se superar?
É uma desculpa. Temos inúmeros casos de pessoas em idade avançada e com problemas que conseguem superar-se, mesmo numa fase tardia da vida. Claro que cada caso é um caso, e há coisas que, a partir de certo ponto, são mesmo impossíveis. Mas tomar a decisão de melhorar em certos aspetos funciona aos 18 como aos 80 anos.
O importante é estar ativo e numa busca constante em sair da zona de conforto?
Sem dúvida. Sair da zona de conforto vai-nos preparar para quando a vida nos atirar testes que não estávamos à espera.
Sempre trabalhou em ginásios. Mas, com a chegada da COVID-19, decidiu apostar em si e, atualmente, é “personal trainer” na vertente “online”. Tem sido uma experiência gratificante?
Sem dúvida! Adoro o ambiente dos ginásios, mas ter saído da minha zona de conforto e trabalhar por conta própria foi uma das decisões mais importantes da minha vida. Faz mesmo uma pessoa crescer.
Que objetivos/sonhos tem para a vida? Um deles era correr 100 quilómetros, mas esse já foi concretizado…
Aprendi a não sofrer tanto com planos para o futuro. Prefiro “espremer” o presente ao máximo. Mas, sim, tenho algumas coisas a fervilhar aqui dentro... tudo a seu tempo.
«Sinto que as nossas ações podem ter grande impacto em desconhecidos»
Há muito que a projeção de Anthony Vincent e da comunidade SIGA deixou de ser local e passou a ser nacional. O “personal trainer”, ao longo dos últimos meses, visitou diversas capitais de distrito, inclusive Aveiro, para realizar uma corrida informal e a cada concentração o número de pessoas foi aumentando, sendo que em algumas cidades mobilizou mesmo mais de 100 pessoas.
Questionado sobre o que sente por a mensagem da comunidade SIGA estar a chegar a tantas pessoas, Anthony Vincent não escondeu a sua satisfação. «Sinto que as nossas ações podem ter grande impacto em desconhecidos e amigos sem nos apercebermos. Sinto, também, que muitas pessoas precisam desses convívios para darem o primeiro passo - não só na corrida, mas também na socialização. Tenho notado que muitas pessoas se isolam do mundo, e se com isto consigo fazer com que saiam de casa, então vale a pena ir ao país todo». Até porque o que o move, nessas concentrações, não é a vertente competitiva, muito pelo contrário. «A corrida, nesses dias, é para desfrutar. Não há medalhas, não há “pace”, nem obrigações. O mais importante é o convívio e a partilha de histórias e emoções», garante, pelo que não esconde a desilusão que foi ter que desmarcar os eventos que tinha programados para a Guarda e Covilhã, este mês, devido a uma pequena lesão que sofreu no pescoço. «Infelizmente, e com muita pena», assume, não pôde levar a cabo essas concentrações, mas garante que vai «compensar ambas as cidades», após percorrer o país de uma ponta à outra, pois, «até 31 de maio, não há planos», afirma Anthony Vincent, que, ontem, voltou a juntar um “mar de gente” em mais um encontro SIGA, desta feita no Porto.












