
Grávidas estrangeiras mais sujeitas a ansiedade
As coordenadoras dos novos gabinetes de terapia multissensorial do Hospital São Sebastião, na Feira, notam que as grávidas e parturientes de nacionalidade estrangeira se revelam mais sujeitas a ansiedade e depressão do que as congéneres portuguesas.
As utentes dos serviços de Obstetrícia e Neonatologia da unidade de saúde de Santa Maria da Feira têm agora acesso a terapêuticas Snoezelen, que, mediante recursos como música, efeitos de luz e ótica, massagem e manipulação de objetos, visam diminuir os seus níveis de ansiedade, stress, nervosismo e depressão, entre outros fatores de risco.
«A gravidez e os primeiros tempos de vida do bebé constituem um período crítico e vulnerável para a saúde mental da mãe e da criança», explica a médica Denise Souza, da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Em 2024, registaram-se no hospital 1.356 nascimentos, sendo que, desses, 187 foram de bebés cujas mães não eram portuguesas.
«Em condições normais, estar à espera de bebé ou começar a criá-lo já é problemático por si só, mas, para uma mulher estrangeira a viver em Portugal e dependente de burocracias para ter a sua vida regularizada, a situação é ainda mais complicada e causa muita ansiedade», acrescenta.
Catarina Aguiar Branco, médica do serviço de Medicina Física e Reabilitação, dá exemplos de utentes de nacionalidade estrangeira que entram no hospital «muito mais agitadas do que as portuguesas», porque, embora vivendo e dando à luz em Santa Maria da Feira, precisam de tratar dos respetivos processos de legalização em concelhos como Marco de Canavezes, que, a cerca de 80 quilómetros, «são mais céleres a emitir os vistos de residência».
Especialista em saúde materna e obstétrica, a enfermeira Ana Patrícia Oliveira realça que a angústia também afeta os companheiros das grávidas e recém-mães, o que cria no ambiente familiar «uma tensão que não é benéfica para ninguém, muito menos para o bebé». É por isso que a prescrição de uma sessão Snoezelen também pode ser alargada ao pai, à segunda mãe ou a outro familiar responsável pela criança. Os homens, de início, são os que mais se revelam «de pé atrás, para depois, afinal, serem os primeiros a querer repetir».
Já quando mãe e bebé têm alta, evitar uma recaída passa por ensinar os beneficiários da terapêutica «a replicarem em casa o que aprenderam no hospital», o que a enfermeira especialista Dulce Brito diz que é possível não tanto com a afetação de um quarto inteiro a esse tipo de terapia, mas com «a adaptação de pequenos aspetos do dia a dia a novos hábitos de calma e relaxamento».
Além de grávidas e parturientes, as novas salas terapêuticas também se destinam a utentes do serviço de Medicina Física e Reabilitação - o que abrange, por exemplo, vítimas de AVC, doentes pulmonares crónicos, adultos com demência e crianças com autismo ou dificuldades psicomotoras - e estará ainda disponível para os funcionários que trabalham nos respetivos serviços.
No máximo da sua capacidade, as terapias podem, assim, chegar a cerca de 1.500 grávidas e parturientes, igual número de acompanhantes, 125 funcionários do serviço de Ginecologia e Obstetrícia e 145 do de Pediatria e Neonatologia, ao que acrescem 800 utentes das várias áreas de especialização de Medicina Física e Reabilitação e 94 profissionais dessa área.