Vale de Cambra: Achados arqueológicos valorizam aldeia desabitada

Gravuras com cerca de cinco mil anos estão a ser identificadas em penedos próximos do Trebilhadouro
Jornalista: 
Rui Cunha, com Lusa
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Gravuras com cerca de cinco mil anos estão a ser identificadas em penedos próximos do Trebilhadouro, uma aldeia do concelho de Vale de Cambra, calculando-se que possam integrar uma extensão de arte rupestre mais vasta, com cerca de 50 metros.
Para a vereadora do Turismo e Cultura da autarquia valecambrense, a descoberta das gravuras veio “mesmo a calhar” por permitir reforçar o potencial turístico da pequena povoação, desabitada há mais de 15 anos e onde duas empresárias estão actualmente a investir 600 mil euros na recuperação de nove habitações rurais, que mais tarde serão destinadas a ocupação hoteleira.
Adriana Rodrigues garante que, apesar dos actuais constrangimentos financeiros, o município irá “apoiar a preservação desse património importantíssimo”. Para tal estão já estabelecidas parcerias com o Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico e com a Escola Profissional de Arqueologia do Marco de Canavezes.
Criar um percurso pedestre relacionado com o novo sítio arqueológico do Trebilhadouro e apostar na divulgação do património pré-histórico são dois projectos camarários nesta área, revelou a autarca, realçando que a população local está “cada vez mais sensível” ao tema da arte rupestre.

Trabalhos
no Verão

As pesquisas arqueológicas junto ao Trebilhadouro, na freguesia de Rôge, estão a ser coordenadas por Alexandre Rodrigues no âmbito do projecto Calambria - Arqueologia e História de Vale de Cambra, desencadeado pela edilidade em 2010. Para o perito contratado pela autarquia, as espirais, linhas e fossetes agora em estudo correspondem aos cânones da chamada Arte Rupestre Atlântica e terão sido escavadas no granito, por picotagem, num período situado entre o Neolítico e a Idade do Ferro.
“Há um painel completamente visível, com duas espirais, várias covinhas e uma que parece ser o desenho de um machado. Um pouco mais abaixo encontramos outros indícios de gravuras e estimo que, num raio de 50 metros, haja muitas mais, sob a vegetação”, afirma.
A equipa responsável pela investigação prepara-se agora para limpar a zona para depois identificar os desenhos perceptíveis, proceder ao seu decalque e expô-los a diferentes tipos de iluminação, apurando assim se a pedra exibe outros motivos para além daqueles que podem observar-se com luz solar.
“Também queremos descobrir se existe alguma lenda associada ao local, como acontece no Outeiro dos Riscos, outro sítio com gravuras rupestres em Vale de Cambra”, acrescenta.
“No fundo”, refere Alexandre Rodrigues, “vamos fazer um estudo completo desde os tempos modernos até ao período mais recuado possível da História, porque o facto é que este concelho tem um grande potencial, por ter sítios identificados que abarcam quase todos os períodos arqueológicos”.
A mamoa do Trebilhadouro é outro monumento que testemunha a presença humana no povoado desde épocas pré-históricas. Mas enquanto que ao Outeiro dos Riscos, na freguesia de Cepelos, se atribui uma simbologia relacionada com “o domínio do território, pela sua posição geográfica alta”, já em Rôge é mais difícil apurar o significado das suas manifestações de arte rupestre, sobretudo porque as gravuras “são mais tímidas, mais escondidas, numa localização mais agreste, encaixada no vale de um ribeiro efluente do Rio Caima”.
Os trabalhos arqueológicos deverão arrancar no Verão, quando as condições do clima são “mais favoráveis”. Alexandre Rodrigues adverte, porém, que não espera “milagres”. “O sentido das gravuras é difícil de obter porque estas figuras têm um código que nós não conhecemos nem conseguimos decifrar. Dificilmente poderemos dizer qual é o significado do que está aqui”, explica.
O arqueólogo esclarece, contudo, que as gravuras do Trebilhadouro “não resultam de um ato fortuito e sim de uma intenção, que faz parte da ocupação dinâmica do território”. “Devagarinho, com passos pequeninos, talvez um dia se consiga identificar essa mensagem”, confia.

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