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“Não se compreende pessoas em fila de supermercado sem máscara”


Margarida Alvarinhas terça, 07 abril 2020

O pneumologista e director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Carlos Robalo Cordeiro, diz que o uso generalizado de máscaras só não está a ser aconselhado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) porque, simplesmente, não há máscaras para toda a população. Evidente, diz o especialista, que a máscara por si só não faz milagres, mas sem dúvida que ajuda a prevenir a propagação da Covid-19, sobretudo tendo em conta que há tantos assintomáticos que contactam com outras pessoas e, sem saberem que são portadores da doença, a passam a terceiros.
“Não se compreende funcionários nas caixas dos supermercados sem máscaras, não se compreende pessoas em filas no supermercado ou na farmácia sem máscaras”, comenta o também coordenador do Grupo de Acompanhamento do Covid-19 da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, defendendo que “as máscaras deviam ser obrigatórias em toda a população”.
As recomendações da DGS sobre a utilização de máscaras tem vindo a mudar, com a autoridade de saúde a actuar em consonância com as indicações da OMS. Profissionais de saúde, infectados e quem trata de infectados sempre estiveram na linha da frente, mas a generalização das máscaras foi estendida a outros grupos de risco. A questão da sua utilização por toda a população tem sido debatida, mas a DGS mantém a posição de seguir as recomendações da OMS. Graça Freitas, directora da DGS, por diversas vezes faz a referência ao facto de o uso de máscara dar uma falsa sensação de protecção, mas a verdade é que quem defende a generalização do uso de máscaras faz referência à estratégia com resultados assinaláveis no controlo da doença utilizada em diversos países. É o caso da China, Japão, Hong-Kong, Taiwan ou Singapura mas também na Europa, nomeadamente na República Checa, cujo exemplo da obrigatoriedade do uso de máscaras por toda a população já foi seguido por outros países, como Eslováquia, Eslovénia e Áustria. Carlos Robalo Cordeiro fala, precisamente, nos resultados alcançados pela República Checa no controle da doença para defender a sua posição do uso generalizado de máscaras e acredita que “se houvesse capacidade para ter máscaras para toda a gente já a OMS tinha generalizado o seu uso”.
“As máscaras mais simples não protegem totalmente a pessoa de ser infectada - para isso existem máscaras mais avançadas para ambientes de cuidados de saúde - mas se alguém estiver infectado sem saber facilmente sem máscara transmite a infecção a terceiros”, justifica Carlos Robalo Cordeiro, sublinhando, a propósito, que em cada cinco pessoas que transmitem a doença, quatro não sabiam que estavam infectadas.
Perante a escassez dos recursos de protecção, a sociedade civil tem-se mobilizado para a produção de máscaras, seja de forma mais artesanal ou mais profissionalizada, uma mobilização que o especialista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra aplaude, afirmando que o importante é que a pessoa “proteja os outros” de serem infectados por alguém que não sabe que o está. |