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Lota de Aveiro: Preço do carapau e sardinha já reflecte efeito da greve
Os pescadores contradizem o Governo e não escondem que esta greve vai mexer no «bolso» e no «prato» dos portugueses, mas asseguram que alguma coisa tinha que ser feita para salvar o sector das pescas

As embarcações permanecem presas ao imenso cais, mais um dia vazio, com os motores calados e as redes recolhidas. Na Lota do Porto de Aveiro, na Gafanha da Nazaré, os homens do mar estão em terra, contrafeitos. «Mas tem de ser», assevera António Macedo, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Pesca do Norte (SPTN), porque «uma certeza temos: se não fizermos nada, nada teremos».
Os pescadores e armadores portugueses iniciaram ontem, às zero horas, uma greve por tempo indeterminado devido ao aumento do preço do gasóleo, juntando-se aos sectores pesqueiros de Espanha, Itália e França.
Em Aveiro, garantiu António Macedo, «nenhuma embarcação saiu para o mar», o mesmo sucedendo nas várias lotas do Algarve e nos portos de Sesimbra, Figueira da Foz, Peniche, Póvoa de Varzim e Matosinhos, devido à greve.
O preço a que chegaram os combustíveis tornou-se insuportável, pelo que STPN admite endurecer a luta iniciada ontem para chamar a atenção do governo e da União Europeia para as consequências do aumento do preço do gasóleo na sua actividade. O objectivo principal é obter apoios financeiros para compensar o aumento no preço dos combustíveis.
António Macedo não vai tão longe quanto alguns pescadores, que defendem medidas como «fechar os portos», impedindo assim a entrada e saída de qualquer embarcação.
«Vamos parar a cem por cento e depois ver que medidas é que vamos tomar», explicou o dirigente sindical.
«As acções serão decididas no decorrer desta paralisação», em função dos sinais que possam ou não vir da União Europeia e do Governo português, face a uma paralisação que juntou diferentes parceiros de um sector fustigado também ele pela crise económica.
«O Governo diz que esta greve não tem efeito sobre o preço do peixe, mas isso só reflecte que não sabe o que diz», critica António Macedo. De acordo com dados da lota de Matosinhos, a meio do mês, o preço da sardinha rondava os 42 cêntimos, ontem chegou a ser vendida a 1,79 euros, enquanto que o carapau que esteve a 2,31, ontem já chegava aos 3,5 euros o quilo.
O presidente da Associação da Pesca Artesanal pensa que um dos objectivos da greve foi ontem mesmo alcançado, quando o ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas foi obrigado a falar sobre a gasolina e sobre a pesca. «Embora fosse para dizer asneiras, mas lá falou». Jaime Silva «lembrou-se de falar na conversão da pesca local para motores a gasóleo, quando se sabe que esta pesca não pode utilizar estes motores porque os barcos são muitos pequenos e a cavalagem autorizada é de apenas 15 cavalos e os motores disponíveis são no mínimo de 37 cavalos».
O que admira a Manuel Soares «é que um ministro diga uma coisa destas sem que ninguém lhe sopre ao ouvido como as coisas se processam».
Ao preço a que está a gasolina, «mais vale ficar parado», admite Manuel Soares, «porque não temos a certeza do que vamos apanhar». Mas resigna-se: «A pesca é isto: uns dias ganha-se e outro não. Um dia destes vamos vender o ouro para trabalhar».

Pouco a perder

António Macedo reforça a ideia de que «os pescadores não têm muito mais a perder, porque se não lutarem, estes barcos só sairão daqui para a sucata».
No mercado da Costa Nova, em Ílhavo, o movimento era o habitual para um de semana. Ali ainda não se vislumbra uma «corrida» ao peixe, com receio da falta dele ou do aumento do preço. «Aqui não vai faltar», garante a vendedora Rosa Correia. «Não sei onde é que vamos parar, mas o meu peixe vai estar estimadinho para poder ser vendido nos próximos dias».
O único peixe fresco que esteve ontem à venda foi pescado quinta-feira e este será o único até segunda-feira, no mínimo. Numa banca ao lado, Maria Floripes, Maria Bela e a irmã, Maria da Conceição, ainda não sentiram qualquer acréscimo na venda do peixe, devido à greve. «O negócio continua péssimo», declara Maria Bela. Floripes é mais prática: «Se o Sócrates tivesse que se levantar às nossas horas para se meter no mar, apanhar vento, frio e chuva, para ainda ter prejuízo, ele ia olhar para os pescadores de outra forma».

Luís Ventura
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